Panorama geral

Brasília desgovernada

Nos últimos dias fiquei sem carro e me obriguei a dar uma caminhada fazendo um percurso que ainda não tinha feito e com uma percepção mais lenta e atenciosa da cidade, que é capital do país e patrimônio mundial. A apressada caminhada de ida e volta a um compromisso a cerca de 15 minutos de meu apartamento na Asa Norte foi suficiente para me deixar extremamente incomodado com o estado de abandono da cidade, que é capital do país e Patrimônio Mundial (sim, estou repetindo de propósito), com a ausência de manutenção do que existe e com a qualidade das intervenções mais recentes. Nessa “caminhada trem-fantasma” fiz várias fotos que ilustram a perplexidade que compartilho com vocês.

SINALIZAÇÃO

Primeiramente fiquei me perguntando se há um limite de deterioração para a sinalização interna das Superquadras, principalmente dos prismas dos blocos. A uma distância de poucos passos fiz cinco impactantes fotos. Olhava para ver se mais alguém compartilhava daquele espanto, mas não havia ninguém olhando como eu para esses melancólicos símbolos do abandono. Passei a me perguntar “os síndicos não se importam? Quem deveria cuidar disso? Quem deveria ser acionado?” . Reza a lenda que a tal Ouvidoria do GDF deve ser acionada, mas por experiência própria raramente algo é atendido.

E não se trata somente de deterioração da sinalização de Brasília. Ela por vezes não existe, como acontece na Superquadra onde moro, e que não é de implantação tão recente assim. Não foi e provavelmente nunca será feita, já que sequer sabemos a quem recorrer. Enquanto isso surgem soluções estranhas como prosaicas plaquinhas de alvenaria revestidas por cerâmica e blocos ganhando nomes de alguma celebridade.

SUJEIRA

E o lixo? Ah, o lixo. Atualmente equipes de limpeza do SLU só não são mais raras que as lixeiras e a educação de quem se livra de seu lixo jogando-o pelo chão, provavelmente do mesmo jeito que faz em casa.

Por toda parte há papéis, plásticos, tampas, garrafas, sacolas plásticas, esponjas e outros materiais indefinidos de um jeito que nosso olhar tristemente se acostuma. Hoje me deparei com uma imundície diferente que me pareceu ser restos de móveis ou entulho à beira da pista e próximos a uma faixa de pedestres.

Estava ali compondo a escala bucólica e sabe-se Deus se algum dia será recolhido.

DESCALÇADAS

Na Asa Sul minha referência são (ruínas de) calçadas amplas, talvez com 2,5 metros de largura, por onde pedestres caminham, com alguma sorte, por agradáveis alamedas sombreadas.

Nessa caminhada espantosa de hoje parei para analisar o que fizeram em torno de uma Superquadra Norte, uma SQN. Na face voltada para o gramado da entrequadra há uma calçada de aparência recente com, no máximo, 1 metro de largura.

Uma senhora com seus cães preferiu seguir pela grama quando alguém vinha em sentido contrário. Simplesmente não cabe.

Calçada de 1 metro.
Ciclovia dublê de calçada.

Na face voltada para o comércio local não há calçada. Mas em algum momento meteram ali uma sinuosa ciclovia, que acaba, infelizmente, sendo a calçada também. Improviso. Na face da Superquadra voltada para a SQN 400 há uma ruína de calçada em paralelo à ciclovia.

Padrão de urbanização na cidade que é capital do país e patrimônio mundial, pra quê?

Um pouco de decência urbanística sobrevive na face virada para o Eixo L, com calçada mais larga como deveria ser no entorno de todas as Superquadras do Plano Piloto.

CABEAMENTO ÁEREO

A caminhada de hoje foi finalizada com mais um exemplo da desurbanização de Brasília: cabeamento aéreo ostensivo em duas das quatro fronteiras da Superquadra.

Para quem não sabe, até a década de 90 todos os cabeamentos elétricos, telefônicos e similares do Plano Piloto aconteciam exclusivamente de maneira subterrânea e faziam parte da identidade visual da cidade de maneira tão forte quanto os prismas de identificacão dos blocos e as placas de sinalização viárias.

A partir dos anos 90, o cabeamento aéreo com postes simplórios de concreto, uma solução pontual para as obras do metrô na Asa Sul, passou a ser adotada pela CEB e se espalhou sem qualquer controle, pudor ou questionamento e, lamentavelmente, se tornou um fato consumado com o qual já quase não nos incomodamos mais.

Para quem é mais observador e cresceu em Brasília, essa cena gera bastante desconforto. Viva a CEB NeoEnergia!

Na Asa Sul a situação parece não ser tão absurda, havendo um maior cuidado em relação aos pontos citados aqui. Mas isso por si já não está certo porque o projeto do Plano Piloto é e em grande parte padronizado para a Asa Sul e Asa Norte e a qualidade de implantação da urbanização deveria ser tratada com respeito acima de tudo.

A sensação é que Brasília está à própria sorte em um vôo sem instrumentos. O que prevalece são concessões e regularizações do que nunca deveria ter sido permitido, grandes obras viárias, patrocínios de times de futebol, museus para agradar a uns e outros e diversas outras decisões que em grande parte só miram as próximas eleições.

A fiscalização está sucateada, com um operacional burocrático e ineficiente. Afinal, a quem interessa que ela funcione?

Nessa toada, sobra para a população brigar e exigir o respeito que a cidade merece, fazendo as vezes do fiscal que ninguém vê atuar de fato, ou que atua de maneira sobrecarregada sem conseguir fazer muita coisa. Parece razoável que Brasília, capital do país e patrimônio mundial, dependa da vigilância de seus moradores para que não se deteriore de vez?

O que realmente importa na preservação da identidade da cidade vai se perdendo lentamente pelo caminho, a olhos vistos, e vamos nos acostumando com o que não deveríamos.

3 pensamentos sobre “Brasília desgovernada

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